Aos 69 anos, morre Mazzaropi, o maior sucesso do cinema nacional
O Estado de S. Paulo, 14 de junho de 1981

O corpo do comediante Amácio Mazzaropi será velado até às seis horas de hoje, no Hospital Albert Einstein, onde morreu ontem, às 8 horas da manhã, de mieloma múltiplo (câncer na medula). Depois, segue para Pindamonhangaba, para ser sepultado no mesmo túmulo de seu pai. Mazzaropi tinha 69 anos e estava internado há 26 dias. Vinha sofrendo de câncer desde 1979, embora só ficasse sabendo da doença nos últimos meses. Seu último filme, O Jeca e a Égua Milagrosa, foi exibido em 1980. Neste ano ele se preparava para filmar O Jeca e a Maria Tomba Homem, mas os sintomas da doença fizeram com que suspendesse tudo. Solteiro, com 30 (sic) filmes, a maioria produzido por ele mesmo, Mazzaropi deixa a mãe, Clara Ferreira Mazzaropi, de 90 anos, que não será notificada da morte do único filho, e Péricles Moreira, de 36 anos, filho de uma de suas empregadas, adotado por Mazzaropi logo ao nascer.

Vários artistas e amigos começaram a chegar ao hospital antes mesmo do início do velório, como Geni Prado, Hebe Camargo e David Cardoso que, de alguma maneira, tiveram suas carreiras ligadas à do artista. Geni Prado começou a trabalhar com Mazzaropi em 51, ainda na televisão, mas a partir de 59 passou a acompanhá-lo no cinema, fazendo um filme por ano, sempre como esposa do personagem "Jeca", em fitas "caipiras". "Convivi com ele durante todo este tempo. Éramos como uma família, devo minha carreira a ele. Nos seus filmes, gostava de improvisar, porque ele era engraçado mesmo na espontaneidade, um artista nato."

Hebe Camargo fazia dupla com Mazzaropi bem antes, no final da década de 40, no rádio: ela cantava e ele completava a apresentação fazendo humor. "Esta é uma perda terrível, numa época em que o mundo está tão necessitado de humor. E a alegria dele era autêntica, ingênua, não apelava. Era como um repentista, não precisava de texto para fazer rir. Com a morte dele, o cinema brasileiro vai encerrar uma fase importante. Ele deixa uma indústria cinematográfica perfeita, com uma equipe de técnicos de alta qualidade, que vai continuar com seu filho, mas já em outro esquema."

Também David Cardoso reconhece que está encerrada uma fase importante do cinema nacional, mas não compara Mazzaropi a nenhum outro comediante porque "ele era único em sua arte de fazer rir. Não foi produzido, ele mesmo se produziu e aí está sua grandiosidade". David Cardoso trabalhou com ele somente dois anos, em 63 e 64, o suficiente para estruturar sua formação cinematográfica. "Foram anos decisivos para mim. Com ele aprendi tudo para continuar a carreira".

O ex-governador Laudo Natel também compareceu para render homenagem ao amigo, que conheceu na época em que governava São Paulo, chegando a participar do lançamento de um de seus filmes. Para Natel, ele era um artista que agradava a todos e, "mais do que ter criado um estilo cinematográfico na figura de "Jeca", ele era um figura humana, sempre pronto a dar chance para os novos".

A obra de Mazzaropi deve ter continuidade agora com seu filho Péricles Moreira, diretor da PAM Filmes. "Vou seguir a mesma filosofia dele, fazendo filmes livres sem pretensões de ganhar prêmios. Vamos filmar O Jeca e a Maria Tomba Homem; temos a atriz, mas perdemos o ator principal." Ainda sem sentir emocionalmente a morte do pai, Péricles Moreira diz ter medo do que possa acontecer depois, quando tiver consciência plena do fato. "Ele não era só meu pai, era também meu irmão e amigo. Uma pessoa muito alegre e, mesmo sendo rico, conservava a simplicidade. Mas o que eu mais admirava é como ele, humilde, conseguiu construir uma vida tão notável."

Uma vida que começou em 1912, em São Paulo, quando Amácio Mazzaropi, ainda menino, foi morar em Taubaté, onde iniciou a carreira artística. Isso ocorreu quando apareceu ali um faquir de nome Ferry, que precisava de um assistente. O então garoto se ofereceu para o cargo, mas logo descobriu que o público preferia ouví-lo contando piadas do que deitado numa cama de pregos. O que ele passou a fazer a partir de 1932, já em São Paulo, em pequenas salinhas alugadas para a apresentação de faquir ou grandes jibóias. Para distrair o público, que na maioria das vezes se desligava daquela patética figura deitada sobre pregos, Mazzaropi contava piadas. Agradou tanto que resolveu montar um elenco teatral. Em 1940, levou para Jundiaí seu Teatro de Emergência, assim denominado porque era inteiramente de zinco, desmontável e com todas as características dos pavilhões da época. Atuava como galã, diretor, autor e empresário e montava textos como Divino Perfume e Deus lhe Pague. Fez rádio e em 1950 participou da inauguração da TV Tupi. E, dois anos depois, a descoberta pelo cinema o tornava nacionalmente famoso e popular.

Sucesso popular

C.M.M.

Até surgir a concorrência da série "Os Trapalhões", com que dividia os maiores lucros do circuito Art-Palácio e a qual o obrigou a atrasar o lançamento de seus filmes do feriado de 25 de janeiro para o meio do ano, Mazzaropi era o produtor-diretor mais bem-sucedido do País na linha de filmes populares, rudimentares e ingênuos (apesar dos recursos técnicos), a que se propôs e da qual nunca saiu. Ainda que, com O Jeca e seu Filho Preto, pretendesse mostrar algo mais (o preconceito racial). Dizia que a PAM Filmes, sua produtora, "se interessa em produzir filmes para o povo, de maneira que este saia satisfeito do cinema". Segundo Paulo Emílio Salles Gomes, "Mazzaropi é mais antigo que o palhaço-caipira Veneno, que ainda percorre o interior na companhia de Dalila, a última vedete do mambembe. Ele é sociologicamente anterior ao Genésio Arruda dos anos 30 e mesmo ao Nhô Anastácio de 1908".

Um grande sucesso de bilheteria, até que Mazzaropi teve de se render às chamadas "necessidades do mercado" e intitulou seu penúltimo filme A Banda das Velhas Virgens, dando uma certa impressão de que se aproveitava da voga das fitas eróticas. O título, porém, tinha pouco a ver com a história e os esquemas tradicionalmente simplórios de seus filmes eram seguidos à risca. Exemplo típico de nossa cultura popular, o Mazzaropi "jeca", curiosamente, parecia mais autêntico no início da carreira: em Sai da Frente, uma produção com orçamento pequeno da Vera Cruz, mas com o mesmo padrão técnico do estúdio. Ele fazia o chofer de um velho caminhão de mudanças e vivia às turras com a mulher (Ludy Veloso). Ele arruma fregueses para uma viagem de São Paulo a Santos e, na volta, dá carona a uma troupe de artistas ambulantes. Entre os quais um cão pastor, Duque, com importante participação na trama, roubando com Mazzaropi as honras da fita. Quase exclusivamente rodada em exteriores, é não apenas o melhor filme de Mazzaropi como ator. É mais autenticamente brasileiro - e o que é mais raro, paulista - que muitos filmes atuais que se apresentam como tal. Uma perfeita homenagem a Mazzaropi seria reprisá-lo na tevê, nos cinemas ou em alguma retrospectiva.

Filmografia

Sai da Frente, dirigido por Abílio Pereira de Almeida, em 1952, na Vera Cruz, foi o filme de estréia de Mazzaropi e o sucesso tão grande que o produtor Oswaldo Massaini o convidou para trabalhar no Rio, onde atuaria em Fuzileiro do Amor, O Noivo da Girafa e Chico Fumaça, entre 1956 e 58. Na Vera Cruz, ainda faria Nadando em Dinheiro, direção de Abílio Pereira de Almeida e Carlos Thiré, e Candinho, direção de Abílio, além de O Gato de Madame, na Brasil Filmes, e A Carrocinha. A partir de 58, tornou-se independente, fundando a PAM Filmes e realizando Chofer de Praça, direção de Milton Amaral. Seguem-se Aventuras de Pedro Malazartes, dirigido pelo próprio Mazzaropi, que desse filme em diante dirigiria quase todos os seus filmes, sozinho ou com outro diretor: Zé do Periquito; Tristeza do Jeca, que inicia a linha caipira na sua filmografia; O Vendedor de Linguiça; Casinha Pequenina, a primeira "superprodução", com reconstituição de época - o diretor era Glauco Mirko Laurelli - e seu primeiro filme colorido: O Lamparina; Meu Japão Brasileiro; O Puritano da Rua Augusta, lançando o diretor John Doo, de origem chinesa; O Corintiano, com direção de Milton Amaral; e O Jeca e a Freira. Mazzaropi termina a década de 60 realizando No Paraíso das Solteironas, com direção e argumento seus, e que rendeu na época 2 milhões e 900 mil cruzeiros.

Em 1970, o seu primeiro filme é Uma Pistola para Djeca, aproveitando para fazer glosa aos faroestes italianos. O diretor é Ary Fernandes. Em 71, um filme-trocadilho, Betão Ronca Ferro, dirigido por Geraldo Miranda. Em 72, Um Caipira em Bariloche, seu primeiro filme com cenas rodadas no Exterior. Também parcialmente rodado no Exterior é o filme seguinte, Portugal, Minha Saudade, rodado no Pátio da Breganha, no Largo do Mercado e em lugares mais afastados de Lisboa. Os interiores foram feitos nos estúdios de Mazzaropi, em Taubaté. A história é simples: um casal português vem ao Brasil com um filho de colo e lá deixa um outro filho com a avó. Aqui, o garoto cresce, torna-se vendedor ambulante, sempre acompanhado de um macaco. Em 75, lança O Jeca Macumbeiro, parodiando filmes da linha de O Exorcista, repetindo a mesma linha em O Jeca Contra o Capeta (76). Em 77, faz Jecão, um Fofoqueiro no Céu e no ano seguinte anuncia que pretende mudar a imagem, com Djeca e Seu Filho Preto, filmado em São Luís do Paraitinga e dirigido por Berilo Fácio, "uma amostragem honesta do preconceito do brasileiro em relação ao preto". Em 79, Mazzaropi realiza seu penúltimo filme, A Banda das Velhas Virgens, depois de afastado por motivo de saúde. Seu último trabalho foi O Jeca e a Égua Milagrosa, lançado em setembro do ano passado.

Exibição garantida

Em 28 anos de carreira, Mazzaropi fez 30 (sic)filmes e foi o artista brasileiro mais popular. E o único ator em todo o mundo a ter, por força de contrato, exibição garantida no mesmo circuito de cinemas para seus filmes anuais. Lançado em 1952 por Abílio Pereira de Almeida em Sai da Frente, produção da Vera Cruz, seu sucesso foi imediato. Tornando-o produtor de todos os seus filmes a partir de 1958 e o único cineasta brasileiro a possuir - em Taubaté - um estúdio exclusivo e bem equipado, onde rodou quase todos os seus filmes posteriores.

Observação do Museu Mazzaropi - Amácio Mazzaropi fez 32 filmes e não 30 como é citado na reportagem. Para conhecer a filmografia completa do artista clic em "Filmes".

volta