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Nem pornô, nem
policial: Mazzaroppi Última Hora 22-23 de julho de 1978, p 11. Jean-Claude Bernardet
Não é à toa que
Mazzaropi tem sucesso. Mazzaropi só tem sucesso porque
seus filmes abordam problemas concretos, reais, que são
vividos pelo imenso público que acorre a seus filmes.
Não é só, porque é careteiro e tem um andar
desengonçado. E porque põe na tela vivências e
dificuldades de seus espectadores, e se assim não fosse,
não teria o Essa temática possibilita uma projeção do público sobre os filmes. O tratamento cômico e o jeito desengonçado do Jeca permite que o público, ao mesmo tempo em que identifica seus problemas na tela, ria deles e se libere de uma certa tensão. Possibilita que o público ria até de sua impossibilidade de resolver os problemas colocados pelos filmes. E justamente este, me parece, o ponto chave da dramaturgia de "Mazza" e de seu sucesso: possibilitar a identificação dos problemas e esvaziar qualquer atitude crítica diante deles. Desse ponto de vista, Jeca e seu filho preto, como muitos outros filmes dele, é exemplar e tem até um valor didático, de tão esquemático que é. O fazendeiro quer impedir o casamento entre sua filha e o filho preto do Jeca. O problema do racismo está claramente vinculado no filme à uma relação entre classes sociais. Muitos diálogos ligam as dificuldades do preto na sociedade à pobreza, à falta de acesso à cultura. O problema é real e não tão mal colocado, mas já distorcido, pelo fato do racismo ser atribuído a um vilão - o mau fazendeiro - sendo que os outros personagens brancos e ricos não se opõem ao casamento. O racismo aparece assim como um problema que não diz respeito ao conjunto da sociedade, mas apenas a um mau-caráter. E para evitar qualquer dúvida, bota-se uma frase sonora na boca do promotor público: "Preconceito racial é uma torpeza". E um primeiro esvaziamento da temática. O segundo esvaziamento ocorre na revelação final, quando se fica sabendo que os namorados, a moça branca e o rapaz preto, são de fato semi-irmãos, resultado de uma "infidelidade" conjugal do fazendeiro. Conclusão: o fazendeiro queria impedir o casamento, não por racismo, mas devido a uma situação de consangüinidade dos noivos. Portanto, Jeca e seu filho preto acaba girando em torno de um problema que, em última instância, não existiu. Fica assim o dito pelo não dito. Esse comportamento é característico de "Mazza": levanta a lebre e, a seguir, esvazia tudo. Um objeto que aparece com freqüência em diversos de seus filmes, talvez possa ser encarado como símbolo desse comportamento: a espingarda torta. A espingarda é uma expectativa de agressividade, de enfrentamento dos problemas, de resposta à altura da situação, de defesa dos interesses do camponês. Mas, por ser torta, ela é também a negação de qualquer forma de ação. Um jogo entre a identificação dos problemas e um convite à passividade. O cinema de Mazzaropi é reacionário e conservador, dizer isto não é novidade; mas o que não se diz é que esse cinema só é eficiente no seu conservadorismo e só representa um nível de consciência a que adere seu fiel público, porque é baseado em problemas reais e vividos, por esse público. As importantes discussões que se desenvolvem atualmente sobre o que seja cinema "popular" não podem ignorar os filmes de "Mazza". Não porque sejam produtos comerciais de grande audiência, nem porque se pensaria em imitar a linguagem desses filmes e enxertar nela mensagens não conservadoras, o que seria uma tolice. Mas porque esses filmes só têm um efeito alienante, na medida em que se comunicam com o público a partir dos seus problemas, canalizando sua tensão dentro de uma sociedade de classe. Há muitas outras maneiras de abordar o cinema de Mazzaropi, mas desde já fica essa afirmação: o cinema de "Mazza" é um cinema poIítico atuante. |